A prática revelada

‘O que faz da prática, prática? Intenção. Graça. Humildade. Consistência. Rotina. Perfeição. Imperfeição. Motivação. Repousar da motivação. Atenção consciente. Fazer algo diferente. Fazer a mesma coisa repetidamente. Fluxo. Sentir-se bem.

(…)

No curso dos meus anos de prática, eu comecei a acreditar que nossa intuição nos leva a um instinto mais profundo. Este instinto está profundamente embutido em nossa humanidade, é o instinto de nos tornarmos melhores. Nós podemos senti-lo. E para satisfazer este impulso frequentemente inconsciente, nós procuramos experiências e professores para ajudar-nos, para mostrar-nos, para dizer-nos qual a direção. Nós podemos não saber o que ele é especificamente, então procuramos professores e experiências que acendam o fogo inato em nós – que tirem este impulso do seu estado dormente e que nos motivem neste caminho instintivo. A partir de um certo ponto cabe a nós atiçar o fogo, trazer mais combustível. Isto é a prática. Conforme abanamos e assopramos, e procuramos por mais combustível, nós nos tornamos mais fortes, mais capazes, mais determinados, e nos tornamos mais conscientes.

Com o tempo, tornamo-nos aptos a recebermos ensinamentos em níveis mais profundos. Frequentemente dizemos a nós mesmos, “mas eu não posso praticar sozinho”, ou “eu vou praticar errado”, ou “eu vou tomar um caminho errado”. Verdadeiramente, estas são as piores coisas em que poderíamos acreditar. (…) Assim, quando interrompemos o processo de prática com atividade mental negativa (e “eu não consigo fazê-lo” é realmente uma escolha intencional), fechamos a porta para o nosso crescimento e para tudo que nos está disponível. Negamos nossos instintos naturais, nosso direcionamento intuitivo.

Com o tempo, tornamo-nos gradualmente menores, mais fracos, frágeis, menos conectados. É uma morte terrível, porque continuamos respirando mas não estamos crescendo. Os seres humanos são os únicos seres vivos que têm a habilidade de separar-se propositadamente da sua própria natureza. Os animais não o fazem, as plantas não o fazem, e nem mesmo os bebês o fazem. (…) É uma grande tristeza que tantas pessoas usem sua inteligência desta maneira. Intencionalmente, voluntariamente, propositalmente e consistentemente permitindo que o seu fogo se apague e morra.

Eu também sou humana, e conheço bem esta opção. A inércia de ficar sentada no sofá, cedendo à preguiça, é muito tentadora. Permanecer sonâmbula nas relações, e deixar a vida passar acenando. Não é que eu não faça estas escolhas – eu as faço. E tenho medo quando as faço. Eu diria que a Prática de fato é minha escolha consciente para manter-me viva. Não quero dizer apenas vivendo – eu posso manter-me alimentada, protegida e vestida. Eu quero dizer realmente viva. Engajada, motivada, refletindo sobre mim, intuitiva, vivamente viva. Às vezes, é uma escolha feroz. Uma escolha dura. Mas eu tenho medo de carvão apagado. E eu confio profundamente no fogo da Prática para manter-me indo adiante. (…) Minha profissão é acender e manter o fogo da Prática em outras pessoas. Ao fazê-lo, vejo alguns que praticam, e outros que não. Tento de diversas maneiras manter as várias chamas acesas e ensinar como fazê-lo por conta própria. Algumas vezes tenho sucesso, outras não. Mas aprendi a reconhecer que a única coisa que posso realmente fazer é manter minha própria prática viva, e desta forma oferecer o exemplo. A Prática mostrou-me com o tempo que eu não sou de nenhum modo perfeita, e nunca serei. Na verdade, a Prática eliminou a meta da perfeição. A Prática revelou-me que, na verdade, há dias em que nem mesmo sei se conseguirei manter minha própria prática nutrida com o passar do tempo. A Prática mostrou-me que não é um processo automático de inspiração-e-motivação. A verdade é a seguinte: há dias monótonos, e às vezes há anos monótonos. (…) A Prática me dá o veículo, o hábito, a disciplina, e mais importante a confiança de manter-me acesa, não importa o que aconteça. A Prática me apóia, e então, por algum ato de Graça e Humildade, me revela.

– Kimberly Ivy, discípula de 20ª geração do Grão-Mestre Chen Xiaowang
http://taijiquan.pro.br/taichichuan/pratica-revelada/
Imagem: Zhang Ziyi in The Grandmaster

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